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O pior bullying de todos: o que fazemos connosco

Toda a minha vida quis ser diferente. Não outra pessoa. Apenas diferente de quem era.

Quando era pequena, queria ser tão divertida quanto as outras crianças. Elas pareciam divertir-se mais do que eu. Depois, cresci. E continuei a querer ser diferente.

Enquanto mulher, houve muitas alturas em que senti que devia ser mais forte, menos emotiva. Mesmo quando lidei com algumas situações difíceis, ao longo da minha vida, e não desisti, acreditei sempre que devia ser mais forte. Noutras alturas, acreditei que devia ser mais amiga, mais atenciosa, mais feminina. Enquanto filha, foram muitas as vezes em que senti que não era suficientemente boa. Tantas que nem as consigo contar. Vivendo longe de casa desde os meus 20 anos, sempre senti que devia estar mais presente, dar mais apoio e estar mais perto do que alguma vez teria capacidade para estar. Durante muitos anos, culpava-me por ter abandonado a minha família e chorava, sozinha, cheia de culpa, mesmo sabendo que fiz aquilo que tantas pessoas fazem: escolhi viver numa cidade diferente daquela em que nasci. E o que é que isso tem assim de tão errado?

Enquanto profissional, sempre me vi como alguém que estava permanentemente a tentar encontrar o seu lugar. Foram muitas as vezes em que não me senti com qualificações suficientes, em que acreditei que não estava destinada a ser bem sucedida e que não tinha o direito de fazer aquilo de que mais gostava. Mas os outros sim. Aprendi tantas coisas, estudei muito, e continuo a estudar todos os dias, porque sempre senti que tinha de provar a mim mesma que merecia, que era capaz. E, mesmo quando as pessoas me elogiam por ter feito um excelente trabalho, mesmo quando os resultados me surpreendem, continuo a precisar de prová-lo. Sempre que crio algo, pergunto-me: “Isto chega? Não podias fazer melhor?” Isto acontece quando desenho algo. Quando escrevo uma história. Quando meto um site no ar e as pessoas acham que está óptimo. Quando envio o ficheiro final a um cliente e mesmo quando dele recebo o melhor feedback de todos, super entusiasmado com o meu trabalho.

“Não podias ter feito melhor?” Provavelmente, sim. Podemos sempre. E é por isso que, no fim, independentemente do que as pessoas me dizem, independentemente dos resultados, sou quase sempre invadida por este sentimento de frustração, de insuficiência. Porque para nós, os picuinhas, os perfeccionistas, nunca é suficiente. Mas a realidade é esta: nunca é e nunca será. E é preciso aprender a lidar com isso.

De algum modo, quase todos nós temos esta tendência para acreditar que devemos ser e criar coisas fantásticas. A filha fantástica. A obra fantástica. A família e o trabalho fantásticos. Ou, pelo menos, mesmo que não tenhamos de ser fantásticos, temos de ser melhores do que somos. Crescemos a tentar surpreender o mundo: não o mundo inteiro, mas o nosso — a nossa família, os nossos amigos mais próximos, os nossos colegas e a nós próprios. Sentimo-nos na obrigação de o fazer porque queremos sentir orgulho em quem somos, porque acreditamos que isso é melhorar e crescer enquanto pessoas. E também porque sentimos necessidade de fazer a diferença. Por isso, competimos. Porque vivemos num mundo cheio de pessoas, porque esse trabalho fantástico ali ao lado só tem uma cadeira e apenas uma pessoa cabe nela.

E é por isso que continuamos a exigir de nós. Cada vez mais. É por isso que continuamos a falar connosco. A nossa voz interior, que é tão perigosa, continua a criticar o que fazemos: “Tu és melhor do que isto. Tenta com mais força. Mostra que mereces!”

Toda a minha vida senti vontade de ser diferente de quem era: uma versão melhorada de mim. No meu caso, isto não significa que seja uma pessoa infeliz ou que não tenha amor-próprio. Apenas significa que acredito, profundamente, que conseguiria sempre ser e fazer melhor. Que todos conseguimos. E, por causa desta crença quase cega que tenho nas nossas capacidades, no nosso auto-melhoramento, é difícil ficar satisfeita com algo que fiz. Nunca é suficiente. Poderia sempre ser melhor.

É como uma maratona que nunca termina. Nunca. É exaustivo.

E não estou sozinha nisto. Estou?

De vez em quando, todos nós caímos neste erro: Acreditamos, genuinamente, que não somos suficientemente bons, que não merecemos, que não somos capazes. Desistimos. Nem sequer tentamos. E, quanto tentamos e até somos bem sucedidos, continuamos a dizer-nos que é temporário, que podíamos fazer melhor, que somos uma fraude, que não merecemos o sucesso e que não somos tão bons quanto poderíamos ser.

Secretamente, continuamos a exigir de nós o quase impossível.

Secretamente, muito secretamente, continuamos a repreender-nos e a intimidar-nos, a desvalorizar quem somos e a fazer esta espécie de bullying connosco.

Porque é isso que fazemos.

E é preciso pararmos com isso.

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Eu sou a Laura. Sou freelancer em desenho gráfico, ilustração, web design e gestão de redes sociais. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

[email protected]

7 Comments

  • 19/02/2018
    reply

    “I wish I could”
    É esta a base ou o slogan’ desse (desequilíbrio 😊) em todos nós, parte do desejo que se manifesta arbitrariamente em todos nós, faz parte da nossa natureza, é ‘ele’ que nos martiriza o ego, o corpo e a alma. É ele que nos obriga a nos reciclarmos sucessivamente, porque ele vai variando de objectivos, uns sentimentais, outros emocionais, outras vezes sensuais e até mesmo intelectuais, obrigando a profundas introspecções a fim de encontrarmos aquilo que tão dissimuladamente cresce em nós, obrigando em simultâneo a uma constante relativação entre nós, com tudo o que produzamos, e os outros, sendo durante essa mesma transição tão momentânea quanto curta, em que nos aparecem como se miragens, as nossas indecisões, as nossas dúvidas e a descrença em nós próprios, porque simplesmente nos limitamos a gostar dos outros e de tudo o que reproduzam, mas sempre com algumas renitências ou reticências ( traduzido; dúvidas e desconfianças )….o que nos faz envergonhar daquilo que sentimos…é isso…é esse desejo” camufulado ou convicto de que podemoe ser sempre melhor que deve ser reconhecido, aceite e depois controlado.
    Tarefa bem difícil, pois leva-nos uma vida a resistir-lhe até reconhecer que o podemos dispensar temporariamente, mas nunca defenitivamente..pois ele é-nos nato, ele actua quando abrimos mão das outras tarefas individuais, de entre elas, a de nos valorizarmos pelo que já fizemos e percorremos em vida, mas nunca pelo que nos falte ainda atingir! Desculpa-me a extensão do comentário…mas podes ficar só pela leitura. Um abraço. 😊

    • 19/02/2018
      reply

      Gostaria de introduzir duas acções’ em paralelo com as “dúvidas e desconfianças”, que seriam “as críticas e os reparos”..sobre os valores reproduzidos pelos outros!
      ..não sei se me é permitido fazer isto aqui e assim, perdoa-me esta minha arbitrariedade!!!!

    • 02/03/2018
      reply

      Camuflado *…. rsrs, errar ainda é humano? 😊

  • 19/02/2018
    reply

    * Relativização / definitivamente *……sorry 😊

  • 19/02/2018
    reply

    Maria Reis

    Muito bom!
    Acho que as tuas palavras traduzem muito bem o que se passa com muitos de nós…poderia ter feito melhor !
    Não estás sòzinha, tenho a certeza!

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