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Assobia, Laura, e finge que não é nada contigo

Tarde de 19 de fevereiro. Uma neura de todo o tamanho — podem ler mais sobre isso aqui. Cinco da tarde e sem vontade de fazer nada. «Não, hoje não é dia.» Fecho o portátil que tenho sobre as pernas. Levanto-me do sofá, donde saio a arrastar os pés e para onde tenho vontade de voltar no segundo imediatamente a seguir. «Faz qualquer coisa para te sentires melhor.» «O quê?» «Vai ao ginásio», respondo a seguir. Como sempre, estou em diálogo comigo. Uma voz manda. A outra resmunga, abana a cabeça e diz: «Não vais nada. Com esse ar tããão motivado, vais esquecer-te de ordenar aos pés para andarem e, ao fim de cinco minutos, estás no chão.» Faço um esgar irónico, de quem não achou piada. Imediatamente a seguir, a minha outra voz, que é mais sensata e responsável, contra-argumenta: «Vais, pois. Um dia de neura é o dia ideal para fazer exercício. Vais produzir endorfinas e vais sentir-te muito mais feliz.» Vou até à gaveta grande, debaixo da cama, e tiro de lá as calças de desporto. Não tenho nenhuma blusa à mão e ajeito-me com um casaco de malha por cima da t-shirt. Na rua, estão só 9 graus.

À porta do ginásio, espreito pela janela, antes de entrar, para me certificar se a passadeira está ocupada. Na verdade, há duas, mas às 5 da tarde costuma haver sempre gente aqui. Na primeira, um rapaz jovem corre como se não houvesse amanhã. A segunda está, finjo, destinada a mim. Entro e dispo o casaco de malha, pousando-o no braço da passadeira. O ginásio é tão pequeno que parece que estamos todos em cima uns dos outros. Meto os auscultadores nos ouvidos e ajeito o tablet à procura da aplicação da Netflix. Não tenho paciência nenhuma para estar aqui a olhar para a parede, e os filmes salvam-me desse tédio.

Vou na sétima temporada da Weeds. Para quem nunca viu: é a história de uma família cujo pai morre, repentinamente, de ataque cardíaco. Para a sobrevivência de todos, ela, a mãe, a viúva giraça, torna-se numa traficante de droga. Mas, se nas primeiras séries isto era algo para o qual ela não tinha jeito nenhum, e um tabu, ao longo dos episódios acaba por se ir tornando no “negócio da família”, onde todos participam, incluindo os filhos pequenos. Claro que a série de educativa não tem nada, mas nem sempre é isso que se quer. É caricata q.b. para distrair e fazer largar umas gargalhadas. Cada personagem é mais estranha do que a outra. E, quando se pensa que tudo está calmo, há sempre algo inesperado que acontece no argumento e que vira tudo do avesso.

Foi o que aconteceu hoje. Mas, hoje, quem ficou do avesso fui eu.

Coloco a série no play e fico a andar em passo rápido, enquanto vejo o episódio. Ao meu lado, o rapaz continua a correr, desenfreado, e eu sinto-me pequena por apenas andar. «É em passo rápido», digo-me assim com aquele ar de quem está a tentar animar-me. «Era pior se estivesses a andar devagar», continuo. Claro. No limite, pior ainda era não estar a andar de todo e continuar esparramada no sofá. Nisto, meto o meu orgulho de lado e volto a sentir-me com o 1,75 de altura que tenho, e os quilos a mais que bem gostaria de perder. Vendo bem, de pequenina não tenho nada. Atrás de mim, dois homens largam gemidos e grunhidos, respiram fundo, pausam tudo e voltam a largar mais gemidos. Olham-se ao espelho, admirando a acentuação dos seus músculos, à medida que vão levantando e baixando pesos. Para os ver, teria de me virar porque não há espelhos à minha frente. No entanto, para eles me verem basta que olhem em frente. Ou que me vejam através do espelho, que ocupa uma parede inteira.

Estou no minuto 35 da passadeira, a transpirar e a pensar que «afinal, o coração está mesmo vivo», e que me parece saltar pela boca, quando o desenrolar da história, que estava tão serena, me mete à frente uma daquelas cenas que bem poderiam acontecer em qualquer lado: menos ali. Uma cena de sexo avassalador.

Ela está no bar. Ele conversa com ela. Acabaram de se conhecer. E ainda não é propriamente uma cena de sexo, mas facilmente se percebe o que aí vem. Penso, por uma fração de segundos, se vou a tempo de carregar na pausa. «Pensa rápido, Laura.» Mas tenho as pernas a ferver e estou mais preocupada em manter o equilíbrio do que em concentrar-me para acertar no botão — algo que, neste momento, exigiria de mim um grande foco de concentração. Desisto. Ela inclina-se sobre o tampo do bar. E os seus braços, num gesto tipo mariposa-bailarina-sexy-aqui-vou-eu, derrubam todas as bebidas do balcão para abrir espaço para os corpos. Depois, sorri com ar malicioso. Já ele, por sua vez, agarra-a por trás e, neste preciso momento da ação, eu arregalo os olhos, soltando um murmurado e repentino: «Merda!» Felizmente, estou em Inglaterra e ninguém me percebe. A cena, claro, continua. E, de repente, fico com a sensação de que os homens atrás de mim até se esqueceram de fazer barulhos. Porque terá sido?

«A sério, tinha mesmo de dar isto agora?», resmungo entredentes, fingindo que não é nada comigo. «As minhas unhas já precisavam de um arranjo… Ah, está tanto frio lá fora. E escuro. Vou coçar a perna para parecer que estou distraída.» A cena nunca mais acaba. Mudam-se as posições, mas o grande plano vai mesmo para as expressões de prazer e para a pele nua. Estou mesmo ao lado da janela e olho para lá dela, como se não tivesse reparado no que se está a passar no écran do meu tablet. «Vai, Laura, mete em acção as tuas aulas de teatro.» Quase que ia jurar que tinha assobiado só para fingir, com mais convicção, que estava alheada daquilo tudo. Nisto, o bully que vive em mim, e do qual vos falei ontem, repreende-me: «Tens 37 anos. Quase quarenta. Tem juízo. Toda a gente faz sexo. Estás com vergonha de quê?» Continuo a olhar pela janela, fingindo que não me ouvi. A cena continua — porque, como é óbvio, quando precisamos que o tempo passe depressa, ele parece durar uma eternidade.

Até que, de repente, a cena acaba. E, quase, quase por milagre, até me sinto mais leve. Por dentro, de alívio. É que, por fora, os 76 quilos continuam todos aqui. «Agora, é escapar ilesa aos olhares», penso. O rapaz ao meu lado parece ouvir o meu pensamento e, esbaforido, lá para de correr. Sai da passadeira. Depois, do ginásio. Quanto aos outros, já não tenho a mesma sorte. Um deles vai. Mas o outro fica.

Ao minuto 50, saio, finalmente, da passadeira. Sem tirar os auscultadores dos ouvidos, e sem levantar muito os olhos do chão, desloco-me até à porta em silêncio. Já na rua, rio-me da situação. «Só mesmo tu para fazeres estes filmes todos, como se alguém tivesse mesmo reparado em alguma coisa…»

Uns passos mais à frente, concluo, afinal de contas, o mais importante: «Ao menos, a neura passou. Tinha razão. Assim sendo, amanhã, vou lá de novo…» E, quando já quase me esqueci do sucedido, a minha voz mais sarcástica de todas acrescenta: «Sim, faz isso, Laura. Mas, amanhã, pelo sim, pelo não, fica-te apenas por ouvir música…»

P.S. Para quem tiver curiosidade em ver a série, o trailer da 1ª temporada está aqui.

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Eu sou a Laura. Sou freelancer em desenho gráfico, ilustração, web design e gestão de redes sociais. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

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3 Comments

  • 20/02/2018
    reply

    Rui Cruz

    eheheh, ler-te é como ir ao cinema com sensaround’ e tudo, mais ainda, tão influenciados com a tua preocupação que até olhamos à nossa volta a ver se há alguém incomodado com o barulho das pipocas ao tirarmo-las do pacote 🙂 podes crer! Excelente momento literário!!!

  • 20/02/2018
    reply

    Luciana Morais

    Ótimo!

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