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Portugal: do que sinto mais falta

Vivo há mais de quatro anos em Londres. Venho a Portugal, em média, de dois em dois meses. Às vezes, mais. Outras, menos. Neste momento, estou cá, em Lisboa. Por isso, volta e meia, lá vem a pergunta: «Do que é que sentes mais falta?» Claro que aquilo de que sinto mais falta são as pessoas. A família, alguns amigos mais próximos e o hábito de estar com uns e com outros. Tudo isso se perde e, mesmo que conversemos por messenger ou skype, nunca é a mesma coisa. Separam-nos, em média, 2200 quilómetros — os suficientes para quebrar a espontaneidade do «vemo-nos amanhã?», que também alimenta as relações.

Mas a minha resposta raramente vai para aí. É que essa é a parte óbvia, que todos esperam. E o que as pessoas querem saber, no fundo, quando fazem esta pergunta, é quais são aquelas coisas do dia a dia, de Portugal, que fazem falta. Se são as ruas, os hospitais, a comida. De todas estas coisas que temos como tão certas, quando aqui vivemos, quais são as que, afinal, são assim tão boas para lhes sentirmos a falta?

De forma aleatória, e falando das que me fazem falta a mim, porque só de mim posso falar, são estas:

A comida. — A nossa gastronomia é tão boa. E é verdade que há vários restaurantes portugueses em Londres, e alguns até são muito bons, mas não é a mesma coisa. Além de boa, a nossa cozinha é rica, variada. E essa variedade não se encontra por lá. Aqui, há de tudo. O pão alentejano. O bife com natas, a feijoada e o bacalhau à brás. A carne de porco à alentejana e a caldeirada de safio. Depois, os pastéis de nata quentinhos, as tartes de amêndoa, e os ovos moles. Ah, os ovos moles de Aveiro são uma perdição. E os cafés! Muito melhores cá, em Portugal, do que lá.

A calma. — «Mas Lisboa está uma confusão!», dizem-me sempre. E eu, claro, também vejo que Lisboa está diferente. Mas, para mim, que vivo numa cidade com cerca de 8 milhões de habitantes — apenas menos 2 do que a população inteira de Portugal —, Lisboa é sossego. Comparar um passeio pela baixa de Lisboa com um pela Oxford Street deixa-me com um sorriso na cara. Não há comparação. Além disso, cá, a movimentação é sazonal e apenas em alguns sítios. Mesmo nos dias de correria, ainda há lugares para onde podemos fugir e encontrar sossego. Por isso, sim, Lisboa é calma.

Belém. Lisboa. | Fotografia: Laura Almeida Azevedo

A luz. — Simples, não é? Mas a nossa luz é uma luz bastante branca. Que ilumina. E diferente da luz em Londres, quase sempre mais escura, porque o céu também está quase sempre um pouco nublado. O tempo de Londres é muito semelhante ao do Porto. E a mim, que sou algarvia e vivi mais de uma década em Lisboa, custa-me bastante a ausência de uma luz forte. Eu sou das que gosta de sentir a luz natural a invadir toda uma casa. Não gosto de lugares escuros, refundidos.

A língua. — É fascinante viver num país que fala uma língua diferente. E um desafio permanente adaptarmo-nos aos sotaques, às culturas diferentes, às expressões do quotidiano que não se aprendem na escola. Mas, por ser um desafio permanente, também cansa. Há dias em que apetece desligar o interruptor. E isso, claro, só acontece quando chego a Portugal. A curiosidade é que, à medida que vou estando mais tempo fora, acontece com cada vez mais frequência chegar cá e a primeira reacção — uma pergunta a alguém, uma pensamento que reage a algo que oiço, um «obrigada» no aeroporto — sair-me em inglês. Isto significa que o meu interruptor está a levar cada vez mais tempo a desligar-se, por estar cada vez mais habituado a ouvir, falar e pensar em inglês. Mas, mesmo por isso, sabe bem estar rodeada pela minha língua.

Os nossos lugares. — Vivo numa cidade que é, para muitos, o centro da europa. Uma cidade onde quase tudo acontece, cheia de pessoas, de culturas e de oportunidades, com vista para o Rio Tamisa. Estar no centro de Londres — sobretudo, à noite, com a cidade de luzes acesas — é mágico. Sentimo-nos parte de uma azáfama e diversidade que vai muito além de nós. No entanto, apesar desta imensidão que fascina, e de toda esta vida que nos faz sentir também mais vivos, os nossos lugares são também aqueles que contam a nossa história. E 33 anos da minha história foi passada cá. Aos meus olhos, Lisboa, onde vivi 10 deles, continua a ser linda; Porto, onde vou quase todos os meses, continua a ser romântico; e o Algarve, onde vivi mais de 20, continua a ser feito de luz. Portugal é um país bonito. Nem todos os seus recantos o são — alguns até assustam. Mas, em geral, é um país bonito. E, quando se está fora, há uma tendência natural para se olhar apenas para o que este país tem de bom.

Como veem, tudo aquilo de que sinto falta é simples. E, apesar de tantas vezes ver os narizes franzidos e ouvir um surpreendido «a sério?» do outro lado, quando respondo a esta pergunta que todos me fazem — «Do que sentes falta?» —, acredito que quase todos nós, vivendo fora algum tempo, passaríamos a valorizar o mesmo. As pequenas coisas. Porque é assim que somos. Quando estamos demasiado perto, a nossa visão deixa-se turvar por detalhes irrelevantes, que permitimos que assumam proporções enormes. Depois, à distância, tudo se atenua e olhamos para o todo de uma forma diferente.

Se acho que tudo em Portugal é fantástico? Não. Se me perguntarem se sinto saudades, ou falta, de outras coisas — como, por exemplo, da nossa mentalidade face a determinadas situações — dir-vos-ei logo que não. Não por viver em Londres, mas porque há coisas nossas, portuguesas, com as quais não me identifico. Mas isso é um assunto para outro dia. Para já, é isto: sinto falta do que é simples. Nestas coisas simples, que mencionei acima, somos um Portugal fantástico. E não é à toa que nos consideram o melhor destino turístico do mundo.

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Eu sou a Laura. Sou freelancer em desenho gráfico, ilustração, web design e gestão de redes sociais. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

[email protected]

5 Comments

  • 28/02/2018
    reply

    Rosane

    Tudo que leio seu é fantástico. Sou sua fã brasileira, amo a cultura portuguesa até casei com um português. Obrigada Laura, seus textos são espetaculares, me identifico.
    💋♥️

  • 01/03/2018
    reply

    Ainda bem que encontro aqui alguém que confirma a opinião que tenho e sinto pelo que escreves, refiro-me à Rosane e a muitos mais que virão, é de facto fantástico ler-te, pois consegues transformar o mais vulgar no mais comum entre todos os seres humanos, de uma forma surpreendentemente fantástica, tanto através da tua intensa sensbilidade como da tua já longa experiência vivida na terra, conseguindo transmitir, para além do prazer bucólico proporcionado pelo que lemos nesta crónica, tanto através dessa lucidez pessoal como da melodia literária irrepreensivelmente pausada, transmites, repito, sensações e observações que acabam por ser tão interessantes como didáticas para todos aqueles que não consigam ou não saibam executar esta arte que tu tão bem manejas, a escrita!
    Falaste em Luz, e fizeste uma observação em relação ao seu brilho e à sua cor, desafiava-te a viajares com a tua imaginação até África, te garanto que luz mais luminosa do que aquela, nunca encontrarás em lugar algum do planeta, para mim, em toda a Europa de norte a sul, paira uma sombra bem tênue de luz quando comparada com a que deixámos por lá, mas sobre as variações de tons que tão bem referenciaste e diferenciam os dois países, são ambas bastante matizadas, conferindo assim uma atmosfera ambiental tão bonita como branda, que o são. Obrigado Laura e recebe um abraço de parabéns.
    Tu farás sempre falta a esta festa Literária que nos enriquece a todos sobremaneira. ☺

      • 01/03/2018
        reply

        O Belo é o exagero do Bonito e no entanto, ambos existem para se poderem diferenciar! ☺

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