Já conheces o meu livro?

Newsletter

back to top

O que me custa não é escrever sobre emoções

Este fim de semana, em Lisboa, num lanche em família e em conversa com um familiar, falávamos disto de escrever. Dos motivos que nos levam a fazê-lo. Dos temas sobre os quais escrevemos. Da dificuldade com que abordamos determinados assuntos não apenas num blogue, mas na vida em geral. Porque há temas que nos são íntimos, há temas que nos custam, há palavras que levam tanto de nós. E, se já é difícil falarmos sobre esses temas com quem nos é próximo, com quem nos viu crescer, com quem dorme ao nosso lado, mais difícil deverá ser falar deles com desconhecidos, em público. Num blogue ou num livro.

A conversa surgiu por causa de um dos meus últimos textos: «O pior bullying de todos: o que fazemos connosco». Do outro lado, as palavras foram mais ou menos estas: «Quando li aquele texto, pensei: se eu conseguisse colocar em palavras tudo o que sinto, teria escrito exatamente isto, com estas palavras. Mas nunca teria coragem para o expôr assim, em público.» Não vieram como uma crítica negativa. Pelo contrário. Incluíram duas positivas: uma, pela minha capacidade para escrever sobre o que tantas pessoas sentem, mas não conseguem colocar num texto; e a outra, pela admiração com que eu, de forma natural, abordo temas tão pessoais, expondo publicamente emoções e sentimentos que também refletem quem sou.

Depois, o auge da conversa aconteceu quando, em certo momento, fiz uma afirmação que surpreendeu: para mim, a maior dificuldade não está em escrever sobre emoções, mas antes sobre a minha rotina. Isso, de contar onde fui, que sítios visitei, com quem jantei, sim, é que requer mais esforço. Não pelo ato em si de escrever sobre esses assuntos, que até são mais simples do que os outros, mas pelo desconforto. Porque, para mim, expor a minha rotina é expor a minha privacidade.

O resto é-me quase nato. Sento-me ao computador e, sem precisar de pensar muito, as palavras aparecem. Sei que abordo assuntos delicados, que falo de emoções que são íntimas, que todos nós temos muito de nós nas palavras que escrevemos, mas vejo sempre as minhas emoções como algo universal. Não me considero diferente de ninguém. Não me acho melhor, nem pior. Considero-me humana e, como eu, somos todos. Uns sentem as emoções de forma mais intensa, outros de forma mais comedida, mas todos as sentimos. E todos sentimos todas as emoções, mesmo que em contextos ou etapas diferentes das nossas vidas. Por isso, quando escrevo sobre elas, não sinto que esteja a escrever apenas sobre mim. Mas sobre nós. Daí quase sempre falar em «nós», enquadrando-me no todo e não me distanciando de ninguém.

O que me custa não é chegar aqui e contar-vos o que sinto em relação a isto. O que me custa é chegar aqui e contar-vos que esta reflexão foi desencadeada num encontro familiar. O que me custa é escrever sobre esses detalhes, mesmo sabendo que, se há coisa que todos nós temos de mais parecido uns com os outros, ela é a nossa rotina: acordar, tomar banho, trabalhar, ir buscar os filhos à escola, fazer o jantar, arrumar a casa, passear ao fim de semana… Onde é que, aqui, com filhos ou sem eles, variamos tanto uns dos outros? Não é tudo, mais ou menos, igual? É.

Do outro lado da conversa, ouvia precisamente o contrário. Que falar sobre emoções, medos, inseguranças, desejos, é que seria difícil. Que o mais fácil seria falar da rotina. E eu achei curioso. Porque não há respostas certas, ou erradas, aqui. Há opções mais confortáveis, e outras menos, que variam de pessoa para pessoa. E há esta forma tão diferente, quase oposta, de nos sentirmos invadidos.

Quando acabámos a conversa, disse-lhe em tom de brincadeira que já tinha um tema para o meu próximo artigo — e aqui está ele. Do outro lado, veio um sorriso: «Mas isso não é muito diferente do que normalmente escreve. É sobre o que sente.» É. Mas com uma diferença. É que aqui, a partir do momento em que iniciei este texto a dizer que tudo começou num lanche em família, abri ligeiramente as portas de casa. E, de algum modo, lanchámos todos juntos: nós, família, e vocês, que me leem desse lado.

. . .

PARTILHA TAMBÉM CONNOSCO. Se também escreves num blogue, ou se já pensaste escrever num, quais os temas sobre os quais te sentes mais à vontade a escrever? Os emocionais, sobre o que sentes, ou os outros do dia a dia?

Gostas do que leste?

Dailypink instagram 2 copy

Para saberes quando um novo artigo é publicado, subscreve a minha newsletter!

Não divulgarei o teu e-mail a ninguém. Powered by ConvertKit

Eu sou a Laura. Sou freelancer em desenho gráfico, ilustração, web design e gestão de redes sociais. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

[email protected]

2 Comments

  • 02/03/2018
    reply

    As minhas felicitações por teres optado” escrever sobre emoções, concordo plenamente com a tua teoria sobre a intimidade de cada um de nós, na minha opinião, a cuscovelhice ainda incide sobre tudo o que façamos ou tenhamos, porque em quem possamos ser, ainda são muito poucos com interesse em saber, pelo simples facto de ainda serem muitos menos com interesse em conhecerem-se a si próprios, é um facto!☺ Parabéns

    PS. Bem sei que a crónica não foi por opção ou escolha, mas sim pela qualidade da tua própria natureza, thank god! ☺

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: