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Respira fundo: a vida sabe o que faz

Tempo de leitura: 3 minutos

Sábado. A noite cai devagar para lá das janelas do meu quarto. O sol já se pôs, escondendo-se por detrás do prédio da frente. Aqui dentro, apenas a luz de um candeeiro de mesa a incidir sobre o teclado. Deixo que essa fresta de luz me ilumine também os dedos, enquanto escrevo, e, por vezes, vou parando para observar a paisagem à minha frente. Nos prédios em frente, ela sobe as escadas com ar apressado até ao terceiro andar e percorre todo o corredor exterior até à ponta que fica no meu lado esquerdo. É daqueles prédios abertos, onde as portas dos apartamentos dão para a rua, para um corredor-varanda comum. Enquanto anda, ela olha para trás. Na mão, segura um ramo de flores. Chega à porta, abre-a e entra. Uns segundos mais à frente, reparo nele. Ele, como ela, sobe as escadas exteriores até ao terceiro andar. Percorre todo o corredor exterior até à ponta que fica no meu lado esquerdo — a mesma porta onde ela entrou. Não leva nada nas mãos. E entra. Não sei quem são, nem se moram por aqui. É a primeira vez que me perco a observar com atenção o prédio em frente. Todas as portas são brancas e as paredes escuras são empedradas. É este o ar rústico típico de Inglaterra. Por detrás, a fazer contraste, três prédios metálicos muito mais altos. Um deles é espelhado e terá mais do que trinta andares. Esses são os prédios modernos do centro de Londres e, de noite, brilham muito mais do que quaisquer outros, porque são altos e quase todas as suas janelas acesas parecem ser feitas de luz.

Recosto-me melhor na cadeira e deixo-me ficar apenas a ouvir a música e a beber o meu chá. Penso nisto. Penso nesta paisagem à minha frente. Esta paisagem de uma cidade que é, ainda para muitos, a capital da europa e que, no trabalho, quando queremos promover os produtos lá da empresa, apelidamos de “o centro da cidade hi-tech”. Esta paisagem de uma cidade que não é a minha e onde jamais imaginei viver. Esta cidade para onde vim por arrasto, há mais de cinco anos, para acompanhar a pessoa com quem vivi durante quase dez e que veio para cá para viver a sua maior aventura profissional. Esta cidade onde, depois de cinco anos, estou sozinha a viver, agora eu, a minha maior aventura profissional. E a aventura de viver num país que não fala a minha língua, num país cheio de culturas tão diferentes de Portugal, num país que não me viu nascer. Um país que não é o meu. Mas que tento que seja, a cada dia que passa, um bocadinho mais meu.

Vou-me lembrando, enquanto aqui estou sentada, da Laura que eu era em adolescente e do quanto sonhava, um dia, poder vir a ser desenhadora (era assim que lhe chamava) e escrever. Escrever para os outros. Escrever para que me lessem. Mas escrever, acima de tudo, para partilhar emoções e encurtar a distância entre mim e os outros. Era adolescente e, enquanto ouvia música, lembro-me de ficar à janela do meu quarto, em casa dos meus pais, com as janelas abertas de par em par, a apreciar a rua onde vivia. Vivia em Faro, uma cidade pequena — era assim que eu a sentia. Com o dia a cair devagar e a aragem fresca da noite a entrar no meu quarto, também ali observava as pessoas, as janelas iluminadas das suas casas e imaginava o meu futuro. Senti, desde muito cedo, que o meu futuro passava por deixar aquela cidade. Senti sempre dentro de mim, com uma certeza tão inexplicavelmente certa, que o meu futuro esperava por mim noutro lugar, noutra cidade, noutro país. E, enquanto ali estava, enquanto pensava no meu futuro e na Laura que iria ser, era numa cidade grande e com prédios altos cheios de luz que me via a viver.

Hoje, tal como fiz tantas vezes na minha vida, deixo-me aqui ficar a observar a noite e vou admirando as janelas iluminadas dos prédios. Todas elas cheias de mundos dentro, de pessoas e de histórias que eu não conheço, mas cujas vidas, tão diferentes ou tão semelhantes à minha, imagino. E, apesar de tudo, de todos os altos e baixos que a vida tem, de todos os contratempos, de todas as aventuras, de todos os desafios, de todas as dificuldades, de todas as decisões que não sabemos se são as mais certas no momento em que as tomamos, quero acreditar que a vida nos traz aonde é suposto estarmos.

A vida encarregou-se de me trazer aqui e eu encarreguei-me de aqui ficar.

P.S. Respira fundo. Deixa a vida acontecer. Ela sabe o que faz.

Eu sou a Laura. Sou uma apaixonada contadora de histórias, e autora de um livro que fala de amor. Sou desenhadora gráfica e ilustradora, a viver e a trabalhar no centro da fantástica cidade de Londres. Em 2014, criei o blog "apeteces-me", que chamou a atenção de uma editora nacional, Marcador, depois de se ter tornado algo popular com mais de 130.000 seguidores no Facebook, e foi assim que me tornei autora de um livro. Completamente apaixonada pelo meu trabalho, é nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a minha maior inspiração.

[email protected]

1 Comment

  • Sexta-feira, 21 Junho 2019
    reply

    rui cruz

    A Vida sabe o que faz como tu sabes o que escreves, como é suave o ritmo do teu olhar, como é fluído o caminhar das tuas palavras, como é belo tudo o que tu olhas assim como é generosa a forma como tu descreves o que te rodeia. És uma escritora, mas acima de tudo, és uma sonhadora muito bem acordada!

    Parabéns por quem te tornaste!

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