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Até ao fim

Minha querida Neta:

Há coisas que as pessoas levam uma vida inteira a tentar dizer-nos e, mesmo assim, continuamos a fingir que não as ouvimos, que não interessam ou que talvez não sejam tão verdade quanto aquilo que nos querem fazer parecer. Quase como se nos quisessem apenas irritar com tanta persistência. Não é?

Hoje, é sobre algumas delas que te quero falar. De mulher para mulher e sem meias-palavras. Coisas sobre as quais não terás, eventualmente, vontade alguma de saber o que quer que seja. Mas desengana-te se pensas que és a única pessoa a ter essa falta de interesse. Eu também a tinha na tua idade.

Achava que a minha vida duraria a vida toda. E esta é a maior mentira em que nos permitimos acreditar quando somos novos. Perdoa-me a frontalidade. Apesar de seres minha neta e de esta não ser a conversa mais ideal de todas, talvez faça mais efeito em ti esta minha frontalidade pouco poética do que fizeram, em mim, as entrelinhas mudas da minha avó.

Naquela altura, apesar de saber que, com o passar do tempo, era impossível eu ir ficando cada vez mais nova, acreditava que o tempo até envelhecer ainda seria imenso e que, quando as minhas primeiras rugas finalmente aparecessem, eu já teria tido tempo suficiente para me mentalizar para elas. E que, inevitavelmente, viver tantos anos me iria preparar para a morte — que já vou vendo a espreitar no fundo da cama. A juventude era algo tão duradouro, que, mesmo que eu tentasse imaginar o tempo a passar, não conseguia. Era sempre «demasiado cedo» para me preocupar com isso. Faltava ainda muito tempo para ficar velha e muito mais tempo ainda para morrer.

À medida que fui crescendo, como tu hás de crescer, percebi que o tempo passa muito mais depressa do que aquilo que estava preparada para compreender. Os anos começaram a correr numa tal sucessão de acontecimentos, que, quando dei por isso, tinha de parar o que estava a fazer para identificar datas, momentos, e até para perceber em que época da minha vida me tinha cruzado com determinadas pessoas. Às vezes, tinha de apontar tudo isto num papel, por ordem cronológica, e fazer contas cuidadosas para me localizar no tempo. Ao início, isto fazia-me sorrir. Depois, percebi que era o primeiro sinal de já cá andar há alguns anos — e aí, admito, deu-me menos vontade de sorrir.

Outra coisa que descobri, por experiência própria, é que a beleza se vai, de facto, alterando: a pele fica mais flácida e um pequeno descuido na aparência pode prejudicar a jovialidade. Os tempos em que qualquer trapinho nos fica bem passam num ápice. Um dia, apercebi-me de que não estava interessada na moda em si, mas em disfarçar a barriga que já começava a querer transbordar das calças justas. Lá se vão os tempos em que acreditamos que é impossível que a pele dos olhos, realmente, enrugue. Há sempre, no fundo, a esperança de que a nossa genética seja, por milagre, diferente e que nos permita passar ilesas pelos anos.

O envelhecimento nunca foi um segredo. Os adultos queixam-se da velocidade do tempo. Os velhos, como eu, trazem sempre um saudosismo exacerbado nas festas que fazem aos netos. Mas, quando se tem a tua idade, o tempo demora. A velhice demora. Demora muito. Tanto. Demora o infinito. E, quando se chega à minha idade, há uma parte de nós que está grata pelos anos que viveu e há uma outra parte incontrolável que sente uma revolta miudinha por nunca ter levado realmente a sério o tempo.

Quando olhamos para datas, quando contamos os anos que passaram e os que nos faltam, apercebemo-nos de que foram demasiados os sonhos que não perseguimos, as roupas que não usámos na altura certa, as vezes em que não tivemos coragem de ir para a frente do palco assumir a nossa verdade. Foram demasiadas as escolhas que fizemos acreditando serem apenas temporárias. Escolhas tomadas pelo receio de que nos julgassem ou com a preocupação de escolhermos o que os outros gostariam que escolhêssemos. Foram demasiadas as vezes em que ficámos em casa com a desculpa de «é só hoje», em vez de nos pormos bonitas, irresistíveis, e de aproveitarmos a vida lá fora. Foram demasiadas as vezes em que nos escondemos atrás das mãos, ou que evitámos sorrir para a fotografia, porque não nos achámos suficientemente bonitas — e, de repente, passaram vinte anos e olhamos para trás com a certeza de que não tínhamos razão alguma para não ter orgulho em nós.

Quando deres por ti, já serás uma mulher adulta, cheia de responsabilidades. A vida só irá depender de ti, mesmo que os teus pais estejam cá para te ajudar nos momentos de maior aflição. Mas a vida continuará a depender apenas de ti.

Irás perceber que é preciso ter muita força para ultrapassar as perdas, as pequenas derrotas, as desilusões e vencer. Mesmo que vencer seja apenas aprenderes a não ir abaixo e a gostar cada vez mais de ti. Provavelmente, irás passar pela fase em que estás a passear na rua e, quando te olhas numa montra, demoras tempo para reconhecer o teu reflexo: porque o teu cérebro ainda acha que continuas com a aparência dos vinte anos. Irás ponderar usar maquilhagem, diariamente, para disfarçar as pequenas rugas de expressão, mas depois descobrirás que não tens paciência para perder trinta minutos do teu dia a fazer algo só para enganar os outros. É provável que precises de tempo para aceitar a nova pessoa que és: mais velha, mais madura, diferente.

Porém, independentemente de tudo, nunca te esqueças de uma coisa: a capacidade de brilhar não depende da idade. A capacidade de brilhar é intemporal. Não precisa de mais nada, nem de mais ninguém: só de ti. A capacidade de brilhar é uma consequência, única e exclusiva, da forma como lidas com a vida e da vontade que tens de não envelhecer também por dentro. A capacidade de brilhar alimenta-se da tua autoestima, do teu amor-próprio, do teu amor pelos outros, das aventuras que te vais permitir viver para te sentires viva, dos amigos que vais ter, da força de vontade para nunca desistires de ti.

Aproveita bem toda a juventude — a exterior, mas, sobretudo, a interior — e aceita o tempo. Sabes porquê? Porque esta é, na verdade, a única forma de se brilhar até ao fim.


Este texto é um dos 77 textos do meu livro «Apetece(s)-me». Sabe mais aqui.

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Fotografia © Larm Rmah

Eu sou a Laura. Sou freelancer em desenho gráfico, ilustração, web design e gestão de redes sociais. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

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