Já conheces o meu livro?

Newsletter

Search

back to top

Faz hoje um ano que deixei de comer carne

Tempo de leitura: 3 minutos

Gosto de comemorar datas. Sou das que as aponta no calendário do telemóvel para não as esquecer. É curioso porque sou péssima para decorar dias de aniversário. Mas há muito tempo que tenho esta mania: quando há uma data especial, onde tenha acontecido algo marcante na minha vida, algo que não quero esquecer, adiciono-a ao calendário. E coloco alertas — para todos os meses, ou todos os anos, fazer contas ao tempo e tirar cinco minutos do meu dia para me transpor para esse dia do passado e refletir sobre ele e sobre a importância que ele teve em mim e na minha vida.

Há, precisamente, um ano decidi deixar de comer carne. De uma hora para a outra. Era dia 17 de abril. Era final da tarde, início da noite. E eu estava em casa. Há dias que andava a pedir a uma pessoa muito próxima, que é vegana e bastante sensível a questões ambientais, uma lista com sugestões de documentários que ela tivesse visto e que achasse mais relevantes — sobre alimentação, ambientalismo, consumismo. E, nesse dia, a sugestão foi o «Earthlings». E o «Earthlings» é um documentário que não só fala das consequências que comer carne têm na nossa saúde, mas também da consequências da nossa alimentação no ambiente e, claro, aborda também o facto de, hoje em dia, não haver uma necessidade real de matarmos animais para comer, quando há tantas alternativas que nos dão as proteínas de que precisamos diariamente. Na mesma altura, vi também o «Cowspiracy», que é mais um daqueles que é impossível esquecer.

Costumo dizer que sou uma resistente. Não sou das que vira a cara para o lado, ou que tapa os olhos, quando um filme ou um documentário inclui imagens fortes. Vejo, quase sem pestanejar, documentários sobre medicina com cenas de cirurgias abertas e não sou das que acha que vai desmaiar quando vê sangue. Mas devo dizer que vi estes dois documentários com as lágrimas nos olhos. Durante dias, andei com estas imagens na cabeça: de animais fofinhos, que olham para nós com ar doce, a serem cortados vivos; de terem as suas peles arrancadas, por inteiro, sem qualquer tipo de analgésico, e serem deixados assim, em carne viva, até morrer. Uns após os outros, numa fila de carne viva e de sons agonizantes.

Nesse dia, com estas imagens na minha cabeça em loop, decidi que ia experimentar viver sem comer carne. Só experimentar. E ver como seria — se me dava bem com a experiência ou não, se me sentiria doente ou se até mais saudável, se conseguiria arranjar produtos alternativos suficientes ou se iria comer a mesma coisa todos os dias, se alguns desses produtos me proporcionariam prazer a comer ou se todos seriam desagradáveis e a minha alimentação passaria a ser um sacrifício diário.

E foi por saber que isto seria, antes de uma decisão, uma experiência que eu iria levar a sério, que o decidi de um dia para o outro. Mas também, apesar de ter tido vontade de partilhar esta experiência desde o primeiro dia, optei por não o fazer porque, antes de tudo, tinha de ser uma experiência minha, pessoal, sem ruído externo — e que, antes de falar aos outros sobre ela, eu teria de descobrir por mim se ela faria sentido para mim, na minha vida, ou se não.

Creio que hoje é a primeira vez que escrevo sobre isto publicamente. Um ano depois. Porque já passou um ano.

Um ano sem comer pratos sem os quais eu achava que não iria viver — carne de porco à alentejana, bifes de perú com cogumelos, entremeada e entrecosto grelhados, iscas, bifinhos de perú panados, salada de atum, bife com batatas fritas, bacalhau à brás. Um ano sem comer estes pratos pelos quais eu sentia uma verdadeira gula e prazer de comer — e a testar a minha determinação. Mas um ano também a explorar novos pratos e sabores, a descobrir produtos que eu não fazia ideia que existiam e a descobrir o prazer de saborear esses novos sabores pela primeira vez.

Um ano já é tempo suficiente para falar sobre isto aqui. Mas, acima de tudo, é tempo suficiente para sinalizar esta minha decisão — cheia de desafios, mas também de descobertas. E é sobre todos eles que gostava de vir a falar aqui também — não para vos convencer a fazerem o mesmo, mas para partilhar algumas coisas que fui descobrindo ao longo desta aventura e contar-vos como é que, afinal, é isto de comer diferente.

P.S. E vocês? Alguém, por aqui, a ponderar fazer o mesmo? Se sim, o que vos motiva? Alguém, por aqui, é um dos 120 mil vegetarianos que existem em Portugal? Se sim, contem-me a vossa experiência. Estou curiosa para saber tudo.

Eu sou a Laura. Sou uma apaixonada contadora de histórias, e autora de um livro que fala de amor. Sou desenhadora gráfica e ilustradora, a viver e a trabalhar no centro da fantástica cidade de Londres. Em 2014, criei o blog "apeteces-me", que chamou a atenção de uma editora nacional, Marcador, depois de se ter tornado algo popular com mais de 130.000 seguidores no Facebook, e foi assim que me tornei autora de um livro. Completamente apaixonada pelo meu trabalho, é nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a minha maior inspiração.

[email protected]

1 Comment

  • Domingo, 30 Junho 2019
    reply

    João Costa

    Espero que esteja tudo bem contigo… Sinto a tua falta!…🤗😘

Deixa aqui o teu comentário... e vamos conversar!

%d bloggers like this: