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Somos feitos da mesma essência

Tempo de leitura: 2 minutos

Desde pequena que gosto de observar atentamente os outros. Lembro-me de a minha mãe me contar que, quando eu era bebé, os meus olhos grandes e muito redondos ficavam fixos nas pessoas e que elas, ao passarem por nós, paravam para comentar o meu olhar. Cresci e tornei-me mulher a continuar a gostar de ficar assim: quieta, com os olhos a girar e a quererem absorver tudo em meu redor. Mas com a idade fui aprendendo a disfarçar um pouco mais este meu lado. Para não deixar os outros tão desconfortáveis. Para não se sentirem tão invadidos. Mas só mesmo por isto: por esta consciência do espaço de cada um e de que o meu olhar consegue ser bastante intenso se me distraio nas minhas observações.

Fui percebendo isto à medida que, ao longo da vida, as pessoas me iam conhecendo melhor e já se sentiam mais à vontade para me confidenciarem que, ao início, se sentiam intimidadas com o meu olhar. Nem vos consigo contar a quantidade de vezes que isto aconteceu, por terem sido tantas. Eu sorria com um pedido de desculpas porque, agora, quem ficava incomodada era eu — ao ter consciência de que as tinha incomodado. Com os anos, fui tentando observar com mais descrição. Confesso que nem sempre consigo. Há momentos em que me esqueço. Há momentos em que me deixo levar. Há momentos em que toda eu sou feita apenas do meu olhar grande, redondo e curioso.

A verdade é que gosto de observar as pessoas, mas não as observo para saber com quem convivem, para coscuvilhar o que dizem, para julgar comportamentos ou para saber mais do que devo das suas vidas privadas. Não é isso. Até sou completamente alheia a isso. Nunca sei quem são os meus vizinhos, mesmo que me cruze com eles no elevador várias vezes ou mesmo que os admire deste lado da janela com atenção. A minha curiosidade não se prende a esses pormenores da vida alheia. Vai além disso. É uma curiosidade mais humana, comportamental, que é motivada pela vontade de compreender e apreciar aquilo que somos, e como nos comportamos, em geral.

Gosto de observar as pessoas porque gosto de tentar ver para lá das nossas rotinas e dos gestos mecânicos que fazemos. Gosto de admirar como se movem, como gesticulam, como reagem aos outros, como contêm as palavras no silêncio que subitamente decidem fazer, como baixam o olhar quando uma palavra as incomoda, como sorriem sozinhas quando pensam em algo que as faz felizes, como os seus olhos brilham quando estão apaixonadas, como prendem a franja por detrás da orelha, como colocam as mãos quando estão a observar os outros, como se comportam quando acham que ninguém as está a ver.

Gosto de observar as pessoas para as compreender. Porque olhar para elas também me ajuda a olhar para mim. Porque me ajuda a sentir empatia e compaixão. Porque me ajuda até a ser mais branda. E a perceber que todos nós reagimos de formas muito semelhantes. Todos nós temos detalhes e gestos e tiques deliciosos que nos distinguem. Todos nós temos uma beleza própria. Todos nós somos feitos da mesma essência. Por mais complexos e diferentes uns dos outros que pareçamos ser, somos também tão semelhantes. E a nossa compreensão um dos outros, muitas vezes, está apenas à distância de um olhar atento. De fazermos o esforço. De tomarmos a iniciativa não apenas de olhar, mas de ver com atenção.

Vamos olhar com mais atenção para quem temos em nosso redor?

Fotografia | Laura Azevedo | Nova Iorque, 2016

Eu sou a Laura. Sou designer gráfico, ilustradora e UI/UX designer. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

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