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O que levamos no coração*

Tempo de leitura: 3 minutos

Fecho mais uma mala de viagem. É uma mala grande, mas nem tudo o que tenho cabe lá dentro. Apenas algumas peças de roupa mais importantes, adequadas à estação do ano, e aqueles pormenores sem os quais acredito já não saber viver. Sempre que mudo de casa, penso exatamente o mesmo: mantemos demasiadas coisas perto de nós, no nosso dia a dia, no nosso espaço, mas grande parte delas não é importante. Mesmo para alguém como eu — uma minimalista — é difícil escapar à inevitabilidade de ir guardando detalhes aqui e além. Por vezes, por esquecimento. Noutras, pelo valor simbólico que têm, pelo que me relembram, como uma caixa de chocolates vazia.

Todas as viagens são importantes. Algumas levam-nos de regresso à nossa origem, àqueles que amamos, aos que nos conhecem tão bem e a um lugar a que familiarmente chamamos casa. Outras levam-nos até ao desconhecido. Sabemos apenas para onde temos de ir, mas pouco mais. Desconhecemos quem vamos lá encontrar, por quanto tempo vamos lá ficar e, acima de tudo, como nos vamos sentir. Vamos para um novo lugar e teremos uma nova rotina, rodeados de rostos novos, com desafios diferentes. A mudança e a novidade vão testar-nos. Será quase tudo tão novo, que até nós nos sentiremos como novos: ao sairmos da nossa zona de conforto, redescobriremos caraterísticas nossas adormecidas. Independentemente da idade que temos.

Mas, embora todas as viagens sejam importantes, há umas que o são mais do que outras. Algumas não têm retorno. Sabemos que, a partir do momento em que decidimos dar o primeiro passo, não há como voltar atrás. São viagens que acompanham decisões importantes que mudam a nossa vida e a dos outros. Depois de tomadas, o único caminho possível é ir em frente de cabeça levantada e desejar muito que tudo corra bem. E esta é uma dessas viagens. Das que separam vidas para dar à luz vidas novas. Das que abanam e reestruturam. Das que tiram o fôlego. Das que nos invadem com receios — receio de não termos feito a escolha certa, receio de que não corra bem, receio das feridas e nostalgias, receio de não sermos suficientemente bons, receio de não termos força suficiente para enfrentar tudo o que aí vem. Mas esta é também das que fazem sentir um frio na barriga. Porque a novidade também nos faz sentir mais vivos, porque nos obriga a estar atentos ao que sentimos, ao que existe em nosso redor e a aprender uma nova vida — um novo nós. E, no fundo, há sempre a esperança de que tudo corra bem e que, atrás da tempestade, nasça um lindo dia de sol.

Uma mala de viagem não chega para uma viagem destas. Em momento algum. Porque o que levamos dentro de uma mala são apenas acessórios. Aquilo de que precisamos, verdadeiramente, numa viagem destas é do que levamos em nós. É acreditar que, nas incertezas e no desconhecido, que serão tantos, daremos o nosso melhor para tirar desta nova experiência algo que nos enriqueça — por dentro. É acreditar que não será fácil, e que haverão muitos momentos de nostalgia pelo passado que deixamos lá atrás, mas que se tomou a decisão mais correta. É acreditar que não importa tanto as dificuldades que vamos enfrentar, mas a vontade de as superar. De nos superarmos a nós. E de sermos justos com o que sentimos e com os outros.

Uma mala de viagem não chega para uma viagem destas. Em momento algum. Não é o que levamos dentro da mala que fará a maior diferença. É, sim, e apesar de tudo o que deixamos para trás: quem somos, os valores que temos e aquilo em que acreditamos profundamente.


Escrito em 01/08/2018.

Eu sou a Laura. Sou designer gráfico, ilustradora e UI/UX designer. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

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2 Comments

  • Sábado, 12 Janeiro 2019
    reply

    Um gosto voltar a ver-te por cá. Um gosto ler crónicas sobre nós, humanos, e os pensamentos, preocupações e sentimentos do dia-a-dia. Um gosto reencontrar uma escritora com quem me identifico tanto nas palavras simples mas nas ideias profundas!!

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