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Ouve, com calma, o teu coração

Tempo de leitura: 3 minutos

Um dia, percebes que algo mudou. Aquilo que sentes, que desejas para ti e para a tua vida é diferente daquilo que tens. Não é pior, nem melhor. É apenas diferente.

Fazes contas ao tempo. Andas há demasiado tempo a sentir-te assim, a meio gás, e a adiar pensar nisso. Distrais-te com coisas simples, mas que te ajudam a ocupar a mente. Vives com tanta entrega os dramas da amiga, do filho, da colega de trabalho, que estes até parecem teus — enquanto pensares neles, não pensas em ti. Com os anos, tens vindo a falar cada vez menos do que sentes — é assim que evitas pensar no que não queres. Aprendeste a dizer que está tudo bem mesmo não estando. Não te lembras do dia em que isto começou a mudar: apenas aconteceu assim porque há escudos que se levantam instintivamente para nos protegermos daquilo que nos incomoda e dói.

Um dia, percebes que não te tens dado o devido valor e atenção. Tantas qualidades que tens, mas foste perdendo o brio de cuidar delas. Há quanto tempo não compras uma peça de roupa? Há quanto tempo não te olhas ao espelho com orgulho no que vês? Tantas pessoas que gostam de ti, e tu delas, mas tens vindo a reduzir o teu leque de amigos até te restarem muito poucos — dizes que eles estão lá, se precisares, mas há quanto tempo não fazes um esforço para tê-los realmente presentes na tua vida? E os sonhos? Ah, os sonhos… como se os sonhos fossem só para os irrealistas. Continuas sem fazer nada pelos teus sonhos porque te escudas na desculpa de que não tens tempo, não andas bem, é o cansaço, é a rotina, são os filhos — essas mentiras piedosas que, na verdade, já todos nós dissemos a nós próprios, em algum momento da vida, sabendo muito bem que quem quer mesmo arranja sempre tempo e lugar. 

Um dia, percebes que falta qualquer coisa na tua vida. Qualquer coisa que não é tão insignificante quanto isso, porque não dá para ignorar — assim uma espécie de elefante às riscas na tua sala de estar. Há dias em que até andas mais ou menos bem — contigo, com as tuas pessoas, com as tuas rotinas e, acima de tudo, com o teu coração. Depois, existem os outros. Ai, os outros. Aqueles em que andas sem vontade e triste. Aqueles em que questionas quase tudo. Aqueles em que percebes que sentes o que não deves. Aqueles que tentas ignorar para ver se desaparecem de vez. Porque, tendo tu uma vida que muitos gostariam de ter, uma vida sem dificuldades, como poderias dar-te ao luxo de não andar feliz? «Que ingratidão!», oiço eu daqui essa tua voz da consciência a dizer — essa tua voz que, por vezes, mais valia estar calada.

Deixa-me explicar-te uma coisa — porque, por vezes, somos tão duros connosco próprios que nos esquecemos que não é só com os outros que temos de aprender a ser mais brandos, mas, acima de tudo, connosco:

A vida não é a preto e branco. Há toda uma variedade de cores — e, mesmo assim, nem todos vemos as mesmas cores se olharmos para a mesma vida (alguns de nós são daltónicos e outros chamam pink a tudo o que se assemelhe a cor de morango). Não há balanças capazes de medir emoções para termos a certeza absoluta de para que lado da balança elas pendem mais. Não há botão de desligar quando os sentimentos começam a ficar turvos. Não dá para retroceder no tempo, como numa espécie de «Regresso ao Futuro», para recomeçar de um determinado ponto da nossa vida com a esperança de ainda irmos a tempo de mudar o futuro. E, ainda, como se isto tudo já não fosse suficiente, eis a cereja no topo do bolo: os sentimentos bons até podem ainda estar aí dentro — pode haver amor, respeito, querer —, mas as emoções à volta deles não serem positivas. Porque existem mal entendidos. Porque há mágoa. Porque há distância. Porque há rotina. Porque há toda uma imensidão de fatores alheios ao sentimento em si. E agora? De que servem bons sentimentos se não são suficientes para andares bem?

Um dia, apercebes-te de que algo mudou em ti. Já não te sentes tão feliz como te sentias antes.

E não se trata de teres, ou não, uma vida boa — a tal vida que outros gostariam de ter. Não se trata de teres, ou não, um trabalho de que gostes — porque até podes ter. Não se trata de teres, ou não, uma pessoa fantástica ao teu lado — porque até lhe podes ver todas as qualidades do mundo. Nem se trata de não sentires gratidão pela sorte que tens.

Às vezes, é só isto: algo, em ti, ter mudado.

E não adianta encheres-te de culpa — mesmo que o faças. Não adianta recriminares-te — mesmo que o faças. Não adianta sentires medo — mesmo que o sintas. Não adianta contrariares-te — mesmo que tentes muito. Porque isso não resolve — apenas adia.

A única coisa que realmente adianta é deixares de fugir de ti.

E enfrentares, de uma vez por todas, o que sentes.

P.S. Ouve, com calma, o teu coração. E confia. Ele sabe o que é melhor para ti.

Eu sou a Laura. Sou designer gráfico, ilustradora e UI/UX designer. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

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