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Quando perdemos alguém…

Tempo de leitura: 4 minutos

Quando perdemos alguém, contra a nossa vontade, dói-nos. A perda é algo com o qual nos é difícil lidar — pelo menos, a perda de alguém que amamos ou por quem estamos muito apaixonados.

No instante em que a perda se dá, são demasiadas as emoções que nos dominam, atordoam e, até, que nos cegam. Somos dominados pela dor, pela impotência, pelo desespero, pela revolta e até, por vezes, pela fúria. Temos vontade de chorar, de estrebuchar, de partir tudo e de nos sentarmos no chão, como uma criança de cinco anos, numa birra atroz de baba e ranho, como se isso mudasse alguma coisa. Não porque queremos obrigar o outro a ficar contra a sua vontade, mas porque não conseguimos lidar com a dor. Que é enorme.

E choramos. Choramos para que a dor, que nos está a queimar o peito, pare. Choramos porque a dor não nos permite respirar; porque nos agride tão violentamente, que temos, no extremo, vontade de fugir e de desaparecer. Não porque queremos acabar com a nossa vida, mas porque não sabemos, naquele preciso instante, lidar com ela. Minuto após minuto, segundo após segundo, somos obrigados a enfrentar o monstro que, agora, vive em nós. Este monstro, que é uma bola de fogo na nossa garganta e no nosso peito, que nos agoniza, que não nos deixa ser. E que faz doer cada milímetro de carne do nosso corpo.

Quando perdemos alguém de quem gostamos muito, e essa perda se dá contra a nossa vontade, vemo-nos forçosamente privados da sua companhia, dos momentos onde fomos felizes e a ideia de isso ser para sempre é demolidora. Como defesa, negamos a perda. Enganamo-nos. Acreditamos que talvez possamos fazer algo para reaver o que acabou. E tentamos. E vamos atrás. E insistimos. Fazêmo-lo porque não queremos uma vida sem o outro. Porque não sabemos lidar com o inesperado. Porque nos sentimos impotentes. Porque queremos ter mão na nossa dor.

Até que, um dia, percebemos que, afinal, não há mesmo nada que possamos fazer e que o que acabou… acabou. Assim.

«O tempo é nosso amigo», dizem-nos. E nós acreditamos, porque precisamos de acreditar em alguma coisa boa. Acreditamos que o tempo vai suavizar a perda e, ao trazer-nos tantas coisas novas, ajudar a relativizar a importância que damos a quem perdemos. Afinal, segundo se diz, a perda de uma amizade cura-se com uma nova amizade, a perda de uma paixão cura-se com uma nova paixão e a perda de um grande amor cura-se com outro amor.

E é verdade. Na maioria das vezes.

Nessa maioria das vezes, o tempo ajuda-nos a esquecer. Ou, mesmo que não esqueçamos, distrai-nos. E nós deixamos que ele nos faça ver que há tantas outras coisas boas no mundo e que até há mais pessoas igualmente, ou mais, especiais. O tempo, os amigos e os familiares, para subirem a nossa autoestima, passam esse tempo a dizer-nos: «Ela não te merecia!» ou «Ele não era suficiente para ti!» E nós acreditamos. Acreditamos que ela não nos merecia e que nós merecíamos melhor do que ele. O sofrimento vai desaparecendo e a autoestima acaba por nos levantar.

E seguimos em frente, confiantes, tranquilos, porque agora tudo está no lugar certo. Tudo está como deveria estar.

Mas nem sempre é isto que acontece, pois não?

Às vezes, o tempo não nos faz esquecer. Às vezes, o tempo abranda, ocupa-nos a cabeça, distrai-nos aos bocadinhos. Apenas. Às vezes, tendo passado pouco ou muito tempo, continua a haver dias em que sentimos a perda da mesma forma intensa e violenta do primeiro dia. Às vezes, continuamos a levar os dias, os meses, os anos, a tentar lidar com a dor, a tentar seguir em frente. E, se há dias em que acreditamos — mesmo! — que estamos a conseguir, que já esquecemos, há outros que nos atordoam, que nos devolvem todos os sentimentos e que nos afundam numa angústia violenta. Outra vez.

Mas o tempo passou. E já chorámos tanto, que esse choro intenso, que chorámos vezes sem conta ao início, acaba. O tempo já nos mostrou que de nada adianta chorar. De nada adianta estrebuchar. Porque as lágrimas não nos devolvem quem já aqui não está — quem já não quer estar.

E é, então, que aprendemos a chorar sem lágrimas.

Aprendemos a chorar nas músicas que ouvimos, em loop, durante dias a fio, porque nos relembram quem e o que perdemos. Aprendemos a chorar nas palavras que escrevemos, que nos parecem arrancar o coração de dentro do peito e apertá-lo com força entre as duas mãos. Aprendemos a chorar nas histórias que lemos, que nos tiram o ar, que nos metem o olhar fixo no vazio. Aprendemos a chorar nos silêncios que fazemos, porque sabemos que já não adianta falar sobre o que ainda sentimos. Que as palavras, como as lágrimas, não trazem de volta quem não quer voltar. Aprendemos a viver com as lágrimas a quererem sair-nos do peito, mas sem saírem. Elas estão aqui dentro, algures. Nós sentimo-las. Porque nos dói. Mas não saem.

E levamos dias, meses e anos assim.

E, um dia, ali sentados, uma vez mais debruçados sobre a nossa própria dor, que ainda nos dói, temos a leve sensação de que é desta: é desta que vamos, finalmente, chorar e deixar sair tudo o que fomos guardando dentro de nós ao longo do tempo. Nesse dia, nesse momento, sentimos as lágrimas a quererem despontar dos olhos. Sentimos a acidez a subir-nos até eles. E, depois de meses, e meses, ou até anos, finalmente choramos.

Mas o que choramos não é um berreiro. O que choramos não é um choro. O que choramos é só um gemido. Um gemido quase mudo, cheio de dor, como o gemido de um animal ferido — que é o que somos. E as lágrimas que choramos — percebemos, então — mal chegam, sequer, para nos humedecer os olhos. Quanto mais para nos aliviar a dor…

Quando perdemos alguém, que decidiu sair da nossa vida contra a nossa vontade, dói-nos. Muito. Às vezes, essa dor desaparece com o tempo e, um dia, até temos o privilégio de vir a ser mais felizes do que éramos. Noutras, a dor fica. Talvez para sempre. Porque o outro pode ter saído da nossa vida, mas não saiu de nós. Apesar da razão. Apesar do tempo. Apesar de querermos.

Escrito em maio de 2017.

Eu sou a Laura. Sou uma apaixonada contadora de histórias, e autora de um livro que fala de amor. Sou desenhadora gráfica e ilustradora, a viver e a trabalhar no centro da fantástica cidade de Londres. Em 2014, criei o blog "apeteces-me", que chamou a atenção de uma editora nacional, Marcador, depois de se ter tornado algo popular com mais de 130.000 seguidores no Facebook, e foi assim que me tornei autora de um livro. Completamente apaixonada pelo meu trabalho, é nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a minha maior inspiração.

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