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Tu não estás só!

Tempo de leitura: 5 minutos

E se eu te disser que este texto é para ti? Acreditas em mim? Talvez sim. Talvez não. E perguntas-me tu: «Por que motivo escreverias um texto para mim, que nem sequer conheces, Laura?» Sim, é uma pergunta legítima. Por que motivo estaria eu aqui, a olhar para este écran vazio, à procura das palavras certas para chegar a ti, que vives apenas desse lado do meu écran? Mas a minha resposta é simples: porque sim. Porque estás desse lado. Porque estamos aqui, juntos, a olhar para as mesmas palavras, na mesma direcção.

Hoje, este texto é para ti.

Para ti, que olhas para o lado, como se nada fosse, e quase assobias, quando te perguntam se estás feliz. Para ti, que teimas em fazer-te de forte mesmo quando a dor te aperta por dentro, e que achas que terás sempre capacidade para suportar tudo — mesmo quando o «tudo» é muito maior do que julgaste ser possível. Este texto é para ti, que achas que consegues camuflar a tristeza, distraindo-te com outras coisas, ocupando-te com a família, com o trabalho, com os amigos, e arranjando hobbies novos a cada três meses. Sim, para ti, que preferes perguntar aos outros como estão, saber dos seus dias, conhecer-lhes as preocupações, ouvir-lhes as histórias — porque sabes que, enquanto estiveres a falar dos outros, enquanto permitires que as suas histórias sejam um pouquinho tuas também, não pensas em ti. Não pensas nas tuas próprias histórias, nas tuas próprias preocupações, na tua própria dor.

Este texto é para ti, que achas que tens vindo a carregar o mundo nas costas e, mesmo assim, quando te deparas com a possibilidade real de desistir, ergues a cabeça e soltas um destemido: «Desistir? Eu? Nunca!» Para ti, que, apesar de tudo por que passaste, nunca, mas nunca baixaste os braços — nem mesmo naqueles dias em que achaste que sim, que os estavas a baixar. Porque eu sei que, apesar de seres assim, forte, capaz, há tantas alturas em que não, não está tudo bem. Há tantas alturas em que queres desistir. E em que te sentes frágil, à deriva, incapaz de dar mais um passo. Mesmo assim, sabe-se lá como e apesar de tudo, arranjas sempre força para dar mais um. E, depois, outro. E sempre mais um passo de cada vez.

Este texto é para ti, que me lês, sim. Porque eu sei — embora não o digas em voz alta — que há momentos em que também precisas que te animem, que te digam palavras de força, que te estiquem a mão e que apertem a tua mão com força, que te deem um abraço sem tempo. E que se deixem ficar assim, ao teu lado, em silêncio — sem exigirem nada de ti, sem julgamentos. Este texto é para ti porque tu não precisas de quem se julga no direito de se meter na tua vida; de quem quer à força resolver os teus problemas ou, e o pior de tudo, os teus sentimentos — como se os sentimentos pudessem ficar resolvidos em três minutos de conversa.

Este texto é para ti, que queres sempre ter certezas. Para ti, que não gostas de viver nos «talvez», nem nos «um dia destes». E para ti, que te agonia o sentimento que te invade, quando deitas a cabeça na almofada — de frustração, de vazio, de impotência, de vontade de mais.

Este texto é para ti, que ainda tens sonhos por realizar — e tantos! — e que te culpas por não teres lutado verdadeiramente a sério por cada um deles. Para ti, que os adias com o argumento de que ainda há tempo, apesar de haver tantos momentos em que percebes que o tempo, afinal, não chega para tudo. E que pode acabar antes do tempo.

Para ti, que guardas tantas palavras só para ti, porque queres ser esta pessoa justa, ponderada, correta e «boazinha» — nem que para isso tenhas de andar a remoer emoções, sentimentos e vontades, em silêncio, dias a fio. E, quando percebes que o preço disso é, por vezes, não seres precisamente tudo isso que queres — justa, ponderada, correta e «boazinha» —, já é tarde demais. Que, afinal, mais valia não quereres armar-te em Madre Teresa de Calcutá. Que, afinal, mais valia ter saído logo tudo aquilo que guardaste aí durante dias. Que só te fez mal a ti e aos outros, direta ou indiretamente.

Este texto é para ti, que tomaste decisões difíceis com uma aparente certeza absoluta, como se fossem as decisões mais óbvias do mundo, mas que continuas, ainda hoje, e em segredo, sem a certeza de terem sido as decisões mais certas… para ti.

E para ti, que, independentemente da idade que tens, queres arriscar algo diferente. Mas falta-te a coragem. E porquê? Tu sabes porquê. É que, apesar de saberes que já não tens idade para condicionar as tuas decisões em prol do que os outros sentem, pensam ou esperam de ti, custa, não é? Custa mandá-los à fava e seguir o coração.

Este texto é para ti, que tens dias em que percebes, ainda melhor do que noutros, que esta vida — esta vida que vives, esta vida que não tem tempo ilimitado, esta vida que pode acabar já amanhã — é só tua. E que nada, nem ninguém deveria ter o direito de influenciar as tuas escolhas, determinar os teus limites, condicionar as tuas vontades e opções.

Este texto é para ti, porque eu sei que há dias em que queres gritar: «Deixem-me em paz!» Tantos dias. Apesar disso, não o fazes. Porque uma outra parte de ti sabe também que os outros importam, porque nunca serias verdadeiramente feliz sem eles. E é por isso que te vais permitindo ir adiando…

Hoje, este texto é para ti, que começaste este texto a olhar para o lado, a assobiar, como se nada fosse contigo. Por orgulho. Por vergonha. Porque seria demasiado intimidante uma estranha, como eu, ter a ousadia de vir aqui dizer-te coisas de igual para igual, de coração para coração. Porque isso iria obrigar-te a baixar o escudo. E tu sabes que, quando baixas o escudo, ficas vulnerável. E isso é meio caminho andado para doer. E tu não queres que doa, pois não? Não depois de teres levado tanto tempo até aprenderes a viver com esse teu escudo. Não depois de ainda te lembrares de como era quando ainda não o tinhas tão resistente, quando te doía com facilidade, quando te doía mesmo muito. E eu sei que a palavra «fraqueza» te incomoda. Que não a queres na tua boca. Porque «dos fracos não reza a história». E tu tens de ser forte, não tens?

Sim, hoje, este texto é para ti. Na verdade, pela forma empolgada como escrevo estas palavras, muito provavelmente sabes, tão bem quanto eu, que, final, este texto não é só para ti. É para nós. Para todos nós que queremos ser fortes, que queremos aguentar tudo, que queremos sempre ir mais longe, que queremos continuar a acreditar, que nunca aceitamos desistir — a menos que essa desistência seja o único caminho para lutar por outra coisa melhor. Para todos nós que, por pensarmos também nos outros, por sermos sensíveis a eles, permitimos que esse nosso respeito pelos outros nos faça lutar menos por nós — por quem somos, pelo que verdadeiramente queremos. Às vezes.

E sabes por que te escrevo este texto hoje? Porque quero dizer-te isto, que é tão simples, mas que nem sempre nos lembramos de dizer a quem precisa e que tantas vezes sentimos necessidade que nos relembrem:

Tu não estás só!

Eu sou a Laura. Sou designer gráfico, ilustradora e UI/UX designer. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

[email protected]

12 Comments

  • Quarta-feira, 13 Setembro 2017
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    Mto bom Laura!…escrita suave e pura!..mtos parabéns e força para continuar!…

  • Quinta-feira, 14 Setembro 2017
    reply

    Estou só sim , isso se nota no meu dia a dia , nos meus jantares solitários , nos dias que nem Janto só para não ter que fazer comida , nos dias que declinam estar comigo , e nos outros que já nem pergunto para não ter que ouvir não . Claro que estou só .
    É uma tentativa de ajuda , mas não ajuda , só me lembra que nada disto faz sentido . Estar só sente -se, vai se sentindo …todos os dias , não há como disfarçar essa condição .
    E agora vou me deitar , novamente só !

  • Sexta-feira, 15 Setembro 2017
    reply

    Maria João

    Obrigada! ❤️

  • Quinta-feira, 28 Março 2019
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    Vanessa

    Texto espetacular. Identifiquei me bastante.obrigada

  • Quinta-feira, 28 Março 2019
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    Margarida

    Obrigada Laura pelas lagrimas que derramei enquanto lia o que escreteveste para mim, para nós… Que nos sentimos tão só, pois estamis muitas vezes sós e a deriva… Obrigada chorar lava os olhos e limpa as poeoras🙏😂

      • Quinta-feira, 4 Abril 2019
        reply

        Margarida

        Hoje estou muito só… Triste dou comigo a fazer contas de quantas pessoas tenho para passar o dia, quantas se lembram da minha existência… Pior só me procuram quando precisam… Hoje estou só exatamente como o tempo chove do céu assim como dos meus olhos

  • Sexta-feira, 29 Março 2019
    reply

    Manuela Pereira

    Laura adorei o texto e identifiquei-me em quase tudo .Espero que continue com a escrita.Um beijinho e felicidades.

  • Quarta-feira, 3 Abril 2019
    reply

    Ana Mafalda

    Tão grata Laura 🙏🤗

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