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Uma flor

Tempo de leitura: 3 minutos

Lembro-me, Margarida, como se fosse hoje, de te ver chegar com os cabelos compridos, metidos no vento, e um olhar doce caído sobre as minhas mãos pequenas e sujas de terra.

Eu tinha estado a correr por entre as árvores do pátio da escola. Tinha aproveitado para cavar um buraco, porque me tinham dito, no início do ano, que guardar um berlinde na terra cavada traria a sorte para os próximos jogos. E eu não podia apenas querer parecer esperto. Eu tinha mesmo de o ser.

Tu chegaste com os teus cabelos compridos e o teu vestido vermelho a dançar no teu corpo pálido. Trazias os teus olhos verdes, presos nas minhas mãos sujas, e eu fiquei imóvel a ver-te.

Lembro-me de ter pensado que, de repente, tinha o coração maior do que o corpo e que lhe sentia os batimentos a latejar na minha garganta, como se todo eu estivesse prestes a explodir.

Percebi, ali, do que era feito o amor à primeira vista que já via nos filmes e que era cantado nas músicas que a rádio passava, quando ia para a escola, no carro da minha mãe.

O meu primeiro impulso foi esconder as mãos, com vergonha de me veres assim: desprotegido, encardido e constrangido por esta loucura de querer ser mais esperto do que os outros.

Sabia que não sabias o que tinha andado a fazer, mas, quando te olhei, senti-me descoberto: como se nada, em mim, fosse segredo ou mistério aos teus olhos — que pareciam ver-me até melhor do que os meus.

Durante as semanas seguintes, as aulas deixaram de ser espaços de tempo nos quais eu tinha de ouvir o professor. Em vez disso, passaram a ser instantes soltos, perdidos na minha atenção a ti.

Olhava-te com uma curiosidade extrema.

Na maior parte do tempo, via-te a escrever nos cadernos, a rabiscar desenhos de casas e de pessoas, a olhar para o infinito desenhado nas janelas, e, quando já tinha quase desistido de esperar que o teu olhar abraçasse o meu, olhavas-me por fim.

E, naquele instante, encontrava o que tinha procurado na minha curta vida inteira.

Um dia, quando as árvores pareciam abrir-se e o céu do inverno parecia aconchegar-nos do frio, com um manto inesperado de azul e de luz, paraste à minha frente com esses cabelos compridos e com as mãos estendidas na minha direção.

Nelas, uma flor.

Com um sorriso malandro, as palavras saíram de ti:

— Toma. Sei que são os meninos que dão flores às meninas, mas tu nunca mais te despachas. Aqui está.

E eu fiquei sem saber se me deveria enfiar num desses buracos onde guardava os meus berlindes ou voar sobre o mundo de mãos dadas contigo. Mudo, paralisado, fiquei ali, a olhar-te.

Quando as aulas terminaram — e terminaram cedo de mais, sem que eu conseguisse ousar falar-te do que sentia por ti —, estive dias sem querer comer, dormir e brincar.

Perguntavam-me o que tinha e eu respondia sempre:

— Uma flor.

Quando percebiam que era uma flor da minha namorada, riam-se. Achavam piada e riam-se de mim.

Riam-se por não perceberem que aquilo que eu sentia, por ti, na tenra idade dos meus sete anos, era já o amor.

E que só o amor tinha as letras do teu nome, que só o amor precisava dos teus cabelos compridos e que só o amor conseguia fazer-me chorar as noites do inverno e entristecer os dias — que já não conseguiam ter mantos de azul e de luz.

Riam-se, Margarida, do amor de uma vida inteira.

— Sabes que te amo desde sempre?

Tu sorris.


Este texto é um dos 77 textos do meu livro «Apetece(s)-me». Sabe mais aqui.

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Fotografia © Matheus Bertelli

Eu sou a Laura. Sou designer gráfico, ilustradora e UI/UX designer. Sou também autora de um livro que fala de amor, blogger e uma fervorosa contadora de histórias. Vivo em Londres desde 2013 e sou absolutamente apaixonada pelo meu trabalho. É nas pessoas, nos lugares e nos pequenos prazeres da vida que encontro a maior fonte de inspiração.

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